O seu relógio biológico está em guerra com a sociedade

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Só porque você dorme mais tarde do que os seus amigos, não significa que você dorme mais tempo que eles; e isso também não o torna mais preguiçoso. E tem mais: a relação entre o horário em que uma pessoa levanta e a sua produtividade é apenas um exemplo dos muitos preconceitos que a sociedade sustenta a respeito do sono e da produtividade. O problema: estas expectativas talvez estejam trabalhando contra nós.

 

Em seu livro mais recente, Internal time: Chronotypes, social jet lag and why you’re so tired, o biólogo alemão Till Roenneberg oferece vários exemplos sobre como as expectativas sociais em torno do tempo podem produzir um efeito prejudicial de ampla escala sobre a população humana. No blog Over on Brain Pickings, Maria Popova nos conduz através de um dos exemplos de Roenneberg, em que ele analisa o confronto entre os ciclos de sono dos adolescentes e o tempo, a partir dos dias escolares típicos:

Roenneberg aponta que, em nossa cultura, existe uma grande desencontro entre as habilidades biológicas dos adolescentes e a nossa expectativa social sobre eles, encapsulados no que é conhecido como ‘disco hypothesis’ — a ideia de que somente se os adolescentes forem para a cama cedo, eles serão capazes de acordar mais dispostos para frequentar a aula no primeiro horário. Os dados, no entanto, indicam o contrário — o tempo dos adolescentes é deslocado, para que eles não sintam sono antes das primeiras horas da noite.

Aqui, nós nos deparamos com um obstáculo cultural doloroso: as aulas começam cedo — às 7 horas da manhã em alguns países europeus — e é esperado que os adolescentes tenham um bom desempenho neste cronograma (que não foi pensado de acordo com o seu tempo interno). Com isso, estudos mostram que muitos estudantes apresentam sinais de narcolepsia — um distúrbio grave que se caracteriza por ataques de sono repentinos e incontroláveis várias vezes ao dia, levando imediatamente ao sono R.E.M. (a fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vívidos).

Em outras palavras: a tendência cultural em associar o acordar cedo com um padrão ideal de sono pode estar se chocando com as necessidades biológicas dos adolescentes. Por um lado, estudos como este são preocupantes, porque sugerem que estamos atravancando o sucesso deles. Entretanto, ao mesmo tempo, parecem apontar para uma solução simples: basta adaptar o tempo ao relógio biológico dos adolescentes:

“Adolescentes precisam de cerca de 8 a 10 horas de sono, mas dormem bem menos do que isso durante a semana”, escreve Roenneberg. “Um estudo recente descobriu que quando o horário de início das aulas do Ensino Médio é adiada em uma hora, a porcentagem de estudantes que dormem no mínimo 8 horas por noite salta de 35,7 para 50%. A taxa de presença dos adolescentes, a performance, a motivação e até mesmo os hábitos alimentares melhoram significantemente se o cronograma escolar é adiado.”

Claro, os adolescentes não são os únicos que sentem os efeitos de desconexão entre o tempo biológico e o tempo social. As evidências se amontoam com pessoas que trabalham até tarde, aumentando assim o risco de obesidade, diabetes e uma imensa lista de outros problemas de saúde desagradáveis. Pesquisadores relacionaram estes efeitos adversos à discordância entre os mecanismos de cronometragem de nossos corpos  (as moléculas que controlam o ciclo diário de produção de gordura e armazenamento em seu fígado, por exemplo) com os nossos estranhos horários de trabalho.

Pesquisadores que estudaram o metabolismo o chamam de “desalinhamento circadiano”. Roenneberg o chama de “jet lag social” (conceito que ele explica resumidamente no vídeo acima). Seja qual forma você chamar, um número cada vez maior de evidências sugere que a desconexão entre os nossos relógios internos e os relógios da sociedade poderão informar aspectos específicos do nosso cotidiano, que variam de distúrbios metabólicos a taxas de suicídio, consumo de álcool e até o motivo pelo qual os homens mais velhos se casam com mulheres jovens. Você pode ler mais sobre a pesquisa em Brain Pickings.
[Via io9]

Fonte: jezebel

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